Cuba: notas de uma viagem

O que vocês vão ler agora é uma pérola, ou melhor, um diamante, porque é mais precioso e raro. Explico: não é todo dia que temos acesso a um relato de viagem de uma jovem intelectual culta, inteligente e com aguçada sensibilidade social como a Profa. Amanda Moreira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Aproveitem a rara oportunidade de ter acesso a um testemunho honesto e equilibrado sobre a vida em Cuba.

 

“O que aprendi em Cuba:

Antes de vir à Cuba sempre desconfiei de quem demoniza cegamente e também de quem não enxerga qualquer problema. O fato é: são tantas falácias que não sobrevivem a um dia de caminhada em Havana.

Cuba não é nem um inferno nem um paraíso, mas eu só descobriria isso comprando minha passagem para lá e desde o primeiro dia pensei que seria interessante fazer das minhas anotações de viagem um instrutivo e divertido diário de bordo, ambientado nas várias cidades que passei junto ao meu companheiro Victor e que se materializou nos posts anteriores. Os textos expressaram o nosso olhar curioso, irônico e delicado que se demorou em paisagens, monumentos e costumes, mas os relatos nasceram fundamentalmente do convívio com o povo e com detalhes do cotidiano.

Viemos à Cuba com o propósito pessoal de conhecer o máximo possível sobre este país. Procuramos experiências que não fossem tipicamente turísticas e que de fato refletissem como é viver como um local. Depois de muitos caminhos percorridos pudemos ter uma visão da capital, do interior, do campo e cidade, o que nos deu a certeza de que viajar dentro da viagem sempre é uma experiência fascinante para bons observadores.

Cuba é um país lindo, colorido e alegre onde o mar se faz presente quase o todo o tempo. Durante dias vimos uma Cuba turística de hotéis, resorts, restaurantes, mas também passamos por estradas, andamos por ruas pacatas e descobrimos silêncios, sem grandes espetáculos para turistas, onde o povo conversa nas portas, compra frutas nas vendas, pega ônibus lotado, sai da escola e do trabalho.

Não acho que conheço Cuba passando apenas alguns dias lá, mas tentei viver ao máximo aquela realidade. E pra quem acha que meus relatos e o meu olhar está carregado de ideologia sugiro ir até lá e ver por si, pois o que vi de Cuba pode não ser o que outras pessoas vejam. Mas vá mesmo, pois nunca devemos julgar o que não conhecemos e sempre devemos estar abertos a conhecer diferentes realidades, compreender diferenças, ir além dos limites impostos. Isso é ir pra frente, é não ficar ancorado na ignorância.

O importante é não deixar que a visão seja impregnada de anacronismo que nos faça analisar um fato histórico com o olhar dos dias de hoje ou do etnocentrismo que nos faça olhar para uma realidade diferente da nossa a partir da vivência que nós temos. Se livrar disso é fundamental para as análises sobre Cuba, pois lá é diferente de tudo que nós, brasileiros, já vimos e sentimos nessa vida, desde o sistema político até os costumes.

Em Cuba aprendi a não olhar e julgar experiências particulares a partir de paradigmas externos à elas, ou seja, a partir das estruturas de uma sociedade capitalista. Quem consegue ver Cuba sem as lentes do liberalismo individualista descobre uma sociedade mais democrática, autoconsciente, culta, mais humana, uma espécie de reserva social de valores humanos que o resto do mundo insiste em destruir.

Nós, como muitos outros visitantes acabamos amando Cuba e como turistas acabamos gastando algum dinheiro por lá. Então, de certa maneira, nossa visita foi boa para o país, visto que o turismo é o ponto forte da economia cubana. Mas, é claro que nossa presença é uma faca de dois gumes, pois o excesso de turismo pode arruinar as muitas coisas que fazem de Cuba um lugar tão agradável – especialmente quando essas coisas são a autêntica vida dos cubanos. Digo isso porque em primeiro lugar o padrão de consumo capitalista já atingiu o país em cheio, principalmente a juventude. Em segundo, porque em Cuba pode não haver fome ou falta de assistência, mas incontestavelmente, há desigualdade. Uma parte composta por cuentapropistas, comerciantes, taxistas (estes então, estão fazendo a festa), guias, etc., a quem se outorgam privilégios derivados do turismo por um lado, e de outro cidadãos que não têm acesso ao consumo permitido através da moeda de turista, ganhando um salário bem baixo como funcionário público (apesar do acesso universal aos direitos sociais). Eis o paradoxo de uma revolução num país periférico cercado de capitalismo por todos os lados.

No fim, como turistas, só nos resta desejar ao país e a população que encontrem maneiras de balancear as várias pressões que atuam sobre o lugar em que vivem. Afinal, uma coisa que os cubanos não são é bobos, eles sabem muito bem que o capitalismo pode ser atraente em alguns aspectos e terrível em todos os demais. Sabem muito bem o que negar e onde querem chegar. Todas as pessoas que conversamos não demonstraram ter muitas ilusões sobre a vida no exterior. Eles reconhecem o “Estado de bem-estar-social” cubano e entendem que a balança está entre ser “pobre” aqui, com direitos sociais garantidos, ou tentar ser “rico” na competição desigual e no desamparo.

Os cubanos têm escassa vivência sobre o que seja pessoas sendo expulsas de terrenos desocupados, gente sendo morta pela polícia, marketing eleitoral, caixa 2, corrupção endêmica, crime organizado, guerra às drogas, presídios superlotados, segurança privada, condomínio fechado, catracas, portas giratórias detectoras (e constrangedoras), vestibular excludente, trabalho escravo, criança fora da escola pedindo esmola ou nos sinais, creches sem vagas, telemarketing, previdência privada, saúde e educação como mercadoria, moradores de rua, bens culturais (shows, cinema, teatro e livros) caros, transporte público caro, analfabetismo, trânsito, fome. Em suma, o cubano tem pouca experiência com o abandono e desamparo.

Cuba é considerado o melhor país da América Latina para ser mãe e a mortalidade infantil é muito mais baixa do que os EUA. Formam médicos/as para atuar no mundo todo. A expectativa de vida é alta, inclusive, na ilha vive a segunda pessoa mais velha do mundo com 114 anos. A educação é referência, há zero de analfabetismo (enquanto no Brasil passa de 12 milhões de analfabetos) e a notável cultura política do cidadão cubano comum impressiona. Em uma perspectiva de classe média e alta, isso tudo não vale nada e a vida em Cuba não tem nenhuma atratividade, mas para muitas pessoas de qualquer lugar do mundo uma vida assim ganharia dignidade.

Falando em classe média e miséria, os batedores de panela adoradores de patos amarelos jamais ficariam satisfeitos em Cuba. Pra começar, não teriam uma oferta de trabalhadoras domésticas baratas à sua disposição para chamar de “moça que trabalha lá em casa”. Por sinal, em nossa viagem encontramos uma brasileira que nasceu em Salvador, mora na Irlanda e foi passar férias em Cuba. Disse que odiou Havana, que a cidade é miserável demais demonstrando arrogância e desprezo. Nós fizemos questão de não estender o papo, pois em três minutos de conversa detectamos muita miséria naquele pensando. A vontade foi dizer: “Vai pra Nova Iorque e deixa Havana pra gente!” Mas preferimos não criar desavenças com nossa conterrânea. Será que ela continuaria com a mesma opinião sobre Havana se conhecesse as periferias dos países ricos? Ou se voltasse com olhos mais atentos para sua cidade natal?

Cubanos não são miseráveis, para aflição dos reaças de plantão. Eles têm comida, casa, televisão (com novelas brasileiras e muita coisa da indústria cultural), roupas… Mas uma coisa é certa, eles vivem bem, sem o consumo nosso de cada dia, não compram 10 pares de sapatos por questões óbvias, mas quem precisa realmente de tantos sapatos simultaneamente? Aqui não há obsolescência programada. Tudo aqui dura e é bem conservado (casas, automóveis, eletrodomésticos, roupas, calçados). Eles possuem dificuldades, mas têm soluções e muita criatividade o tempo todo, para moradia, para consertar os carros da década de 1950 que andam perfeitamente e em
ótimo estado, para falta de produtos… É um povo que não fica reclamando e sim vai à luta para sobreviver. Devido ao bloqueio, faltam muitos itens, mas algumas coisas penso que não fazem tanta falta mesmo. Nós apenas acostumamos a usar e alimentar o consumo alienado e a produção em massa. Em Cuba não há desperdício o que acaba os tornando mais ecologicamente corretos. Se você vai num mercado vai levar as mercadorias na mão, dificilmente dão sacolinhas. Guardanapos, idem. Papel higiênico também (não vimos muitos lugares sem esse item, mas também não esbanjam). O fato é: a ilha vive de prever problemas e dar soluções possíveis e vendo tanta luta em volta, nem passa pela nossa cabeça reclamar de nada.

Isso é Cuba ou o que aprendi sobre Cuba. E agora que estou de volta ao mundo em que o único senhor é o mercado financeiro, em meio a uma crise civilizacional em que a barbárie é a regra e a alternativa aparentemente não existe, continuo acreditando que o socialismo é o horizonte, todavia não quero que seja necessariamente como é em Cuba ou em qualquer outro lugar onde a burocracia centralizada do Estado se instalou, mas quero que consideremos todos os acertos e principalmente os erros do século XX. Sem cegueira política. Essa revolução foi o que pôde ser e não o que desejou ser. Portanto, se me mandarem ir à Cuba, serei sempre obediente e desejo a todos e todas que sendo comunista ou não, “Vá pra Cuba” tomar uns goles de rum, dançar uma salsa e mergulhar no mar caribenho. Quem sabe indo à Cuba as pessoas saibam respeitar escolhas sem julgamento de valores baseados no consumismo, na alta competição e deixem os cubanos viverem suas vidas em paz, parando de propagandear mentiras e de pagar mico internacional. Os cubanos riem quando falamos do que alguns brasileiros acham como é a vida em Cuba. Logo nós que vivemos sob um golpe e já vivemos 21 anos sob uma ditadura.

E por falar em ditadura, está aí outra questão. Sempre ouvi uma campanha midiática que transformou em senso comum a visão de que em Cuba reina a repressão e o autoritarismo, mas até agora estou procurando elementos da ditadura que insistem em dizer que existe na ilha. Refletindo sobre tudo que vi, senti e percebi no país só posso concluir que Cuba nunca foi uma ditadura, ou não se fazem mais ditaduras como antigamente… Esses dias em Cuba, fiquei pensando que algo de errado há na “ditadura” que governa Cuba. Afinal, que ditadura é essa, em que milhares de cidadãos apoiam seus líderes há 60 anos e nunca organizou um grande levante contra ele? Que ditadura é essa em que o povo expõe com orgulho o tempo todo a imagem dos seus “ditadores”? Que ditadura é essa que as pessoas são felizes, bem informadas, têm cultura, saúde e educação de qualidade? Que ditadura comunista é essa que permite a coexistência de diversas religiões (três afro, judaísmo, muçulmana, além do cristianismo e suas derivações)? Que ditadura é essa onde o voto não é obrigatório mas a população comparece em massa nas urnas? Que ditadura é essa em que apresentam na TV programas em que divulgam o orçamento e dizem para onde está indo o dinheiro dos impostos pagos pela população? Que ditadura é essa em que as pessoas fazem críticas propositivas ao governo dando possibilidades de solução? Que ditadura é essa que não reprime duramente a oposição com balas de borracha e bombas de gás?

Lembrando do nosso querido artista brasileiro (e muito querido pelos cubanos) Chico Buarque, eu digo: “Pai, afasta de mim esse cálice”, mas se tiver Daiquiri, Mojito ou Cuba Libre, aproxime! “

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