Quem disse que a educação pública não funciona?

Dois sistemas educacionais que destoam COMPLETAMENTE do clima institucional de CAÇA ÀS BRUXAS que caracteriza o ensino básico público no Brasil e nos Estados Unidos são o finlandês e o cubano, não por acaso, dois dos sistema educacionais mais admirados, hoje em dia, no mundo. E, mais uma vez, não por acaso, 1) são COMPLETAMENTE PÚBLICOS E GRATUITOS, e 2) adotam perspectivas educacionais nas quais o professor é REALMENTE a mola mestra do sistema, um profissional DE FATO valorizado e respeitado.

Só a título de ilustração, na Finlândia (que está sempre nas primeiras posições no PISA), a profissão docente se destaca por seu PRESTÍGIO SOCIAL, e suas AUTONOMIA E CONDIÇÕES DE TRABALHO, e desfruta de imensa confiança da sociedade similar à medicina, a advocacia e outras do mesmo quilate em termos de valor social. Dessa forma, a carreira é exercida por toda a vida e é uma das mais disputadas. Anualmente, mais de 20 mil candidatos concorrem para o cargo de professor de escola primária, e apenas um décimo destes conseguem ser selecionados. É importante frisar que o mestrado é a habilitação mínima para se ensinar nas escolas daquele país, ou seja, o professor só pode ensinar naquele país se tiver, no mínimo, o mestrado.

Outra característica do sistema educacional finlandês destoante do modelo corporativo global de educação é a ausência quase completa de testes padronizados externos de rendimento escolar. Seus discentes apenas deparam com testes dessa espécie ao final do ensino básico, na idade de 18 ou 19 anos, com vistas ao ingresso em universidades.

Da mesma forma, o respeitadíssimo sistema educacional cubano tem como principais fatores explicativos do seu invejável exito, da sua consistência e do seu alto desempenho: o investimento sustentado em educação, sempre com elevado percentual do Produto Interno Bruto (o maior do mundo em 2012, segundo o Banco Mundial), a excelência da formação de seu corpo docente, o ambiente social favorável à cultura e à educação e os êxitos obtidos na redução das disparidades salariais, na diminuição do desemprego e na universalização dos serviços de educação e saúde de qualidade.

Esse notável sistema educacional tem como um de seus pilares a formação de excelência de seus professores, os quais mantêm um estreito vínculo com a comunidade, interagindo regularmente com os pais por intermédio dos conselhos de pais, ocasião em que os docentes tomam conhecimento das condições que enfrentam os alunos e suas famílias, possibilitando o desenvolvimento de uma ampla rede colaborativa de apoio à educação que, em última instância, sustenta as inovações desenvolvidas nas escolas, pela legitimidade que aquela adquire no seio da comunidade.

São comuns, em Cuba, visitas de professores aos pais, oportunidade na qual tentam identificar potenciais problemas que possam afetar a aprendizagem dos alunos.

O reconhecimento do valor e da excelência do sistema educacional de Cuba nos quesitos igualdade e desempenho tem-se registrado mesmo em hostes inesperadas, tais como UNESCO e Banco Mundial. Recentemente, o Relatório de Monitoramento Global de Educação para Todos – 2015, da Unesco (UNESCO, 2015), apontou que somente Cuba, na América Latina e Caribe, alcançou todos os objetivos mensuráveis de educação, propostos no Fórum Mundial de Educação em 2000, em Dakar, Senegal, ocasião em que governos de 164 países se comprometeram com objetivos como cuidados na primeira infância, educação primária universal, alfabetização de adultos e paridade e igualdade de gênero. O documento coloca Cuba em 28º lugar mundialmente, junto com Suíça, Reino Unido, Japão, Noruega e Finlândia. Enfatiza, por exemplo, indicadores de igualdade de gênero em todo o sistema educacional de Cuba, perto de paridade plena, e a proporção de alunos por professor. Confrontado com a média mundial de 40, Cuba tem uma proporção de apenas 10 alunos por professor.

No mesmo sentido tem-se expressado o Banco Mundial quando, em relatório setorial de 2014 concluiu que nenhum corpo docente na região hoje (com exceção de Cuba) pode ser considerado de alta qualidade quando comparado globalmente, e que nenhum sistema escolar da América Latina hoje, com exceção de Cuba, está muito próximo de padrões elevados, elevado talento acadêmico, remuneração alta ou, pelo menos adequada, e grande autonomia profissional, que caracterizam os sistemas educacionais mais exitosos do mundo (como os encontrados na Finlândia; Cingapura; Xangai; China; Coreia; Suíça; Holanda e Canadá).

O documento salienta ainda que em 2012 nenhum país da região, exceto Cuba, tinha mais do que 30% de todas as crianças matriculadas em creches (para as crianças de seis meses a quatro anos de idade), e que no nível pré-escolar, nenhum país latino-americano, exceto aquele, universalizou cobertura pré-escolar para quatro e cinco anos de idade, apesar de vários deles terem alcançado a matrícula universal de cinco e seis anos de idade em meio dia para o nível pré-escolar.

Concluindo, é importante assinalar ainda que em 2015 o Banco Mundial divulgou em seu site que Cuba foi, dentre todos os países do mundo, o que maior percentual do Produto Interno Bruto (PIB) destinou à educação em 2010 (12,8%), superando países ricos como EUA, com 5,4%, Dinamarca, com 8,7% e Reino Unido, com 6,2%, por exemplo.

As informações que eu trouxe aqui, na tentativa de enriquecer o primoroso texto desta semana da coluna da minha amada amiga Elizabeth Zanovello, fazem parte de minha Tese de Doutorado, mas já podem ser lidas em dois artigos que escrevi, um sobre a educação finlandesa e outro sobre a cubana. Seguem os links para acessar ambos os artigos:

Sobre a educação finlandesa: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782017000300802&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Sobre a educação Cubana: http://seer.utp.br/index.php/a/article/view/279/280

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