A cândida defesa da Rede Globo

Tenho presenciado, ultimamente, um fenômeno que poderia ser considerado surpreendente por aqueles profissional e academicamente mais envolvidos com a dinâmica social, a saber: manifestações individuais de incômodo com as críticas endereçadas à Rede Globo. Apesar de alguns colegas das ciências sociais considerarem até mesmo surreal esse apoio àquele império de mídia por parte de suas próprias vítimas, entendo que a questão, por sua complexidade, deve ser encaminhada contemplando-se as diversas dimensões nela envolvidas.

No geral, a argumentação média nessas intervenções tem privilegiado o estrito campo de atuação mais imediato da emissora, a saber, o fornecimento de lazer/entretenimento e de informações jornalísticas à população. Alega-se, em defesa daquele monopólio comunicacional, dentre outras pérolas, que quem não gostar de sua grade de programação deve lançar mão de seus concorrentes, como alternativa (como se houvesse alguma diferença de qualidade entre um programa do Faustão e um do Silvio Santos, ou algum grau diferencial de riqueza cultural, sofisticação e complexidade na trama entre as novelas de todas as emissoras do circuito comercial brasileiro). No prisma jornalístico, o aviltado defensor da emissora indigna-se com o que considera um malévolo “patrulhamento ideológico”, e avisa que possui suficiente bagagem intelectual para discernir informações fornecidas por qualquer veiculo e formar seu soberano juízo.

Trata-se, em minha modesta perspectiva analítica, de um enfoque limitado e perigosamente empobrecedor, pela força que possui a Globo para moldar o ideário e os valores hegemônicos de nossa nação. Focando-se estritamente naquelas mencionadas dimensões, incorre-se no pueril erro de omitir da análise exatamente o aspecto que desvelaria o real papel que essa empresa desempenha no iníquo arranjo político-economico imperante em nosso país, a saber, o de agente ideológico estruturalmente responsável pela legitimização popular desse arranjo, o qual espolia mais de 85% de nosso corpo social para que uma abjeta e parasitaria minoria possa nababescamente levar uma vida de “sultões tupiniquins”.

Não vou desperdiçar aqui o meu tempo e o dos outros trazendo a quilométrica “ficha corrida” da Rede Globo em nossa historia recente, desde que foi providencialmente criada e projetada pela ditadura empresarial-militar de 1964, passando pela sistemática campanha de ocultamento da “Diretas-Já” e pelas congênitas manipulações eleitorais (das quais a edição do debate Collor-Lula em 1989 se tornou o “arquétipo-mor”, não se esquecendo também do escândalo do Proconsult em 1982, que quase custa a eleição do Brizola no Rio de Janeiro, tivesse ele incorrido na ingenuidade aqui tratada). Acho que não preciso também lembrar que esse monopólio esmera-se em sufocar e impedir concepções alternativas na abordagem econômica e nas questões ambiental, política e social, incorrendo, assim, na conformação de uma conveniente “verdade única” encarnada no que ele cinicamente prega como “interesse nacional”.

Não deveria ser necessário, mas temo ter que lembrar que essa empresa de mídia tem entre seus principais clientes conglomerados empresariais que sustentam e impõem à nação uma descomunal miséria e a maior concentração de renda e de poder econômico dentre todos os países do mundo. Os do setor financeiro sugam quase a metade do PIB nacional para sustentar meras 20 mil famílias, razão pela qual nunca veremos nos veículos da Globo qualquer menção à auditoria da divida publica brasileira, já que seus acionistas, juntamente com seus anunciantes, fazem parte desse seleto clube.

Portanto, pondero que a cômoda posição de defesa da Globo nos estritos campos do entretenimento e da informação jornalística suscita um acobertamento de toda uma atuação estrutural desse monopólio no sentido de manter um iníquo status quo que dilacera todas as perspectivas de vida minimamente digna para dezenas de milhões de brasileiros. Dessa forma, fique-se claro o lado que está sendo beneficiado por essa cândida defesa da Globo, como se esse gigante precisasse da solidariedade de atomizados indivíduos de classe media e de estratos inferiores de nossa sociedade. Ou seja, não se está negando o direito a essas manifestações, mas há que se colocar de forma clara que elas reforçam, legitimam e tornam quase indestrutível o vergonhoso arcabouço socioeconômico e político brasileiro.

Portanto, há um preço a pagar por essa “amabilidade” com a Globo, e esse ônus cai sobre 85% de nossa população. Mas fiquem à vontade,…a consciência de cada um é seu guia.

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